VALE DA ARREGAÇA - Mercado, Feira e Horta Urbana

Localização   Vale da Arregaça - Coimbra

Fase               Concurso 

Ano                 2016

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Memória Descritiva e Justificativa

Introdução

Na atualidade, o conceito de mercado não passa apenas pela idealização da sua dimensão, ou seja pela quantidade de espaço oferecido, mas principalmente pela capacidade de reunir num mesmo local a oferta certa, os clientes adequados e uma mais-valia comparativamente a obras similares. Faz então sentido dimensionar e apropriar estes espaços à realidade local e regional, dotando o espaço de outras valências, tais como a horta urbana e a feira, que tem a capacidade de atrair para este local mais pessoas e potenciar o seu uso. Um aspeto teórico e prático que é chave no desenho deste tipo de espaço, é o seu “layout”, que interagindo com as diversas utilizações, expressa e potencia ele próprio os diferentes usos, com uma estrutura espacial simples e atrativa. Por tal, o desafio da conceção do programa teve quatro pressupostos fundamentais, a saber:

De que forma a organização espacial multi-funcional pode fazer a diferença?
Como reunificar a cidade, em especial esta zona próxima à intervenção, ao rio Mondego e à frente ribeirinha?
Que dimensão e que morfologia deverá ter o equipamento, por forma a constituir uma solução efetiva a nível local e regional?
Como unificar as diversas valências deste programa trivalente de um modo coeso? Durante a elaboração do programa, conceção e desenho do “Mercado, Feira e Horta Urbana”, estes conceitos teórico-práticos foram sendo aclarados e serão explanados ao longo do texto.

Justificação

A escolha deste programa não surge por mero acaso. É este um espaço até hoje inexistente não só na cidade como no País. Vem no seguimento do estado de abandono do mercado do Calhabé e da necessidade de um espaço com melhores condições e mais condigno para a feira, atualmente no Norton de Matos, bem como da pretensão da Câmara Municipal de Coimbra, em implementar mais hortas urbanas. O projeto nasce da necessidade de dotar o município de um suporte físico, efetivo à expressão de atividades económicas num contexto local e regional, bem como ao facto de estes serem espaços vitais para o comércio e para o desenvolvimento social e cultural.

A região num conceito supra-municipal, e mais precisamente Coimbra está carente de um programa como este, que proporcione um espaço que abarque as valências descritas e que evite o aparecimento de edifícios temporários e anárquicos, tais como as tendas desregradas da feira do Norton de Matos, da feira das cebolas na praça do comércio, da feira do livro, e outros eventos sem local definido e inadequados à realidade da cidade de Coimbra. Este projeto pretende constituir um contributo para a cidade e para a região, na dinamização da produção, do comércio e da educação ambiental.

Local

O terreno escolhido para a proposta de projeto, localiza-se na área da cidade de Coimbra denominada “Vale da Arregaça”, mais propriamente nos terrenos da antiga fábrica de porcelana de Coimbra e do “laranjal”. Estes situam-se numa zona urbana cujas características são muito específicas, assim, embora em contexto urbano, a sua malha cadastral revela características rurais na forma como o território se encontra delimitado e organizado (Quintas, algumas com origem medieval, a outrora Quinta D. João, agora Urbanização Quinta D. João, a Quinta Fonte do Castanheiro e a Quinta da Saudade). Do ponto de vista arquitetónico, a norte do terreno existem algumas habitações uni-familiares com características rurais centenárias, variando entre um e três pisos, contudo algumas em ruínas e devolutas. Há também a envolvente verde a Poente, pela futura continuação do Parque Verde da Cidade que agora se encontra intrinsecamente ligada ao programa. Pretende-se com este facto introduzir na cidade, tanto o Parque Verde como levar a cidade até ao rio. A Nascente faz-se a transição entre a cidade de betão e a cidade verde que aqui acontece. A Sul há a ter em consideração um curso de água, a Ribeira da Arregaça, que se situa quase no limite do terreno e que permite a conciliação e recuperação de várias realidades claramente distintas, inclusive a ligação à Quinta da Estrela e à Fonte do Castanheiro, permitindo também um acesso mais imediato da população vizinha.

Destaca-se assim que, toda a intervenção tem em conta a sua envolvente, respeitando e enaltecendo a integração na cidade dos vários corredores verdes e urbanos anteriormente descritos. Há a salientar que o projeto foi idealizado tendo em conta o projeto do “Metro Mondego”, o qual para além de modernizar a antiga linha ferroviária da Lousã, inclui uma estação de metro para o Vale da Arregaça. Existe ainda o plano rodoviário que prevê o alongamento da Avenida da Lousã até à zona da Solum. Esta seria a principal via de acesso automóvel ao espaço projetado no âmbito desta proposta. De salientar o fácil acesso ao local, não só pela proximidade da Ponte Rainha Santa Isabel, como do próprio metro e o dito prolongamento da Av. da Lousã, que garante transportes públicos, o que reduz em grande parte o uso do transporte particular.

Programa

A nível programático, a intervenção organiza-se em três espaços distintos interligados entre si, a saber, Mercado, Feira e Horta Urbana.
O mercado desenvolve-se no edifício principal da proposta, tendo como área de articulação com a feira e a horta urbana, a praça e o eixo longitudinal que atravessa a intervenção.

O mercado em si desenvolve-se em dois corpos que abarcam os diversos usos, estando devidamente estratificados, de modo a ser prático e funcional, não só para os clientes como para os comerciantes. Há lugar às bancas entre estes dois corpos, promovendo o contacto direto mais próximo entre utilizadores. A permeabilidade do mesmo permite uma continuidade programática.

A feira está devidamente organizada por forma a evitar os conflitos habituais em outros espaços. Para tal estão devidamente marcados os postos de venda, existindo também uma estrutura modular, que se retrai no pavimento, de modo a que anarquia das bancas aqui não aconteça, mas permitindo e potenciando todas as outras valências. Há ainda lugar a “box’s” para o lixo, para que o impacto visual seja mínimo. A horta urbana desenvolve-se na zona Nascente da área de intervenção, estando devidamente reticulada, embora acompanhando a inflexão provocada pelo arruamento e pelo eixo articulador de programa. As “box ́s” de apoio à horta tem a função de permitir o arrumo de alfaias agrícolas. Há ainda lugar a uma área destinada à compostagem, para que seja diminuto o impacto ambiental, fazendo as pessoas uso deste fertilizante orgânico, em detrimento dos químicos.

Estratégia de Intervenção e Metodologia | Contextualização

A nível metodológico optei por fazer pesquisa “in loco”, visitando diversos mercados e feiras objetos de estudo, fazendo o levantamento “SWOT ou FOFA” – Forças (Strengths), Fraquezas (Weaknesses), Oportunidades (Opportunities) e Ameaças (Threats). Com esse levantamento e entrevistas a comerciantes e clientes, fui-me apercebendo do que deveria potencialmente trazer para este projeto, o que deveria evitar e também o que deveria acrescentar.

A estratégia de intervenção partiu da ideia de mercado, funcionando de modo a contrariar a tendencialmente progressiva extinção dos mercados tradicionais e feiras, assegurando a validade e sustentabilidade deste tipo de programa no tempo. Esta intervenção pretende também, promover a coesão dos espaços de respiração/verdes com o tecido urbano, contrariando o seu afastamento das pessoas e da cidade, respondendo à conjuntura da crise económica de um modo sustentável e profícuo, não só para a cidade como para a região.

A importância deste trabalho passa pela constatação da necessidade de um espaço de comércio tradicional e atual, associado a uma localização estratégica para assim gerar e promover cidade. É necessário um espaço que estimule a economia local, onde se privilegie o pequeno comércio e onde se promova o contacto direto entre produtores, comerciantes e o público em geral.

A ideia defendida será de um conjunto edificado integrado no seu meio envolvente, que funcione como uma plataforma sobre a paisagem que o rodeia, um espaço que não se limite às suas paredes, mas que se prolongue para o exterior, desfrutando dos espaços verdes oferecidos, funcionando assim como uma extensão dos espaços construídos, de modo a possibilitar uma relação muito íntima entre o construído, a natureza e a cidade.

A presença de uma envolvente verde, bem como de edifícios próximos, constitui uma mais-valia, sendo expectável que ambas as componentes não sejam perturbadas pela presença do equipamento, mas sim que este se integre e as complemente.

Conceito Estrutural | Sistema construtivo

O conceito estrutural assenta na premissa de que para vencer vãos muito grandes, são necessárias vigas de elevada alma, assim e como se pretende que a zona de mercado seja coberta, optou-se por um sistema de treliças em aço, descarregando numa viga que assenta nas platibandas, que por sua vez descarregam à super- estrutura e às fundações. Nos volumes do mercado, são as paredes resistentes que permitem que a cobertura pouse sobre estas.

Escala |Massa |Volumetria |Cércea
Optou-se por promover um conjunto edificado que não assumindo demasiada importância na paisagem se solte do terreno, para tal propôs-se uma volumetria contida, e na qual se consegue diferenciar os vários programas, não só pela escala como pela cércea, através da imponência da cobertura em treliça.

Principais Acabamentos

Betão Branco
Realça-se o facto de grande parte do projeto ser em betão branco. O cimento branco é reconhecido pelas suas qualidades estéticas, versatilidade e grande durabilidade. Esta solução apresenta uma elevada versatilidade, permitindo assumir as mais variadas formas e texturas, conjugando diferentes efeitos luz/sombra.
O betão é simultaneamente a estrutura e o acabamento final da obra. Este facto vem dar importância à necessidade de um bom comportamento da estrutura em serviço, a cofragem. Com efeito, a manutenção do bom aspeto do betão branco aparente é, em grande parte, assegurada pelo controle da largura de fendas associada a uma correta quantificação dos esforços em estado limite de utilização.
Toda a superfície exterior de betão será protegida com um produto hidrófugo para evitar o aparecimento de fungos, em especial nas superfícies voltadas a Norte. As zonas inferiores das superfícies em betão aparente serão ainda protegidas com um produto anti-grafiti que possibilita a limpeza de eventuais pinturas murais.

Aço
Usa-se este material a nível das asnas e treliças da cobertura, garantindo assim estabilidade vencendo um vão de grandes dimensões. O mesmo material é usado nos vãos exteriores, dando uma leitura una com as características normalmente associadas aos mercados.
Madeira
Reutiliza-se a madeira da antiga linha de caminho-de-ferro, visto estar a ser reformada a vizinha linha da Lousã. Seria interessante o aproveitamento dessa madeira e aplica- la no revestimento dos pavimentos, sendo a mesma seccionada em tábuas, permanecendo com o acabamento em bruto.

Aspetos formais e de linguagem arquitetónica

A solução formal aqui adotada, tem por base a permeabilidade que se denota, não só pelos cheios e vazios, como pelo eixo de ligação que marca o território. Nesta proposta é visível a intenção de seduzir as pessoas para este espaço, exaltando a mancha verde que se funde com o edificado.